5.10.07

















porquê um escrito errante e cifrado fere tanto?

Distantes as que parecem aves só porque deslizam

num bando disposto por um tino que
mal suspeitamos



sobre o ninho ameaçador que submerge o céu inteiro,

sem ouvirmos os brados que supomos entrelaçam

para se manterem cúmplices e avançarem em arco,




na cinza escrevem-no para quem, ao olhá-las, tudo tema.


Atinge-nos assim uma elegia átona, a súplica num perigo

onde logo nos precipitamos sem conhecermos defesa.

















Manietados, acorremos a este apelo a ninguém

que se abeira e intensifica até ser uma seta

contra nós expedida por esse arco incessante.






_______________________________________







abre aí

abra aí
a b r e a l i

a b r a l i

a b r e a

a li

re li

r e l i

a l i



li

a









________________________________



joséBentoAlgunsMotetosFotosCarlaSalgueiroMariaFlores
abaixoHerbertoHélderImagemde
http://jugioli.blogspot.com/

3.10.07











Paradise
Is exactly like
Where you are right now



Only much much


Better «««««««»»»»»»»»




I saw this guy on the train
And he seemed to gave gotten stuck
In one of those abstract trances.
And he was going: "Ugh...Ugh...Ugh..."

And Fred said:
"I think he's in some kind of pain.
I think it's a pain cry."
»»»»»»»»»»»»»»«« And I said: "Pain cry?

Then language is a virus."
Language! It's a virus!
Language! It's a virus!
Well I was talking to a friend
And I was saying:
I wanted you.
And I was looking for you.
But I couldn't find you. I couldn't find you.

And he said: Hey!
Are you talking to me?

Or are you just practicing
For one of those performances of yours?




Huh?
Language! It's a virus!
Language! It's a virus!
He said: I had to write that letter to your mother.
And I had to tell the judge that it was you.
And I had to sell the car and go to Florida.


Because that's just my way of saying (It's a charm.)

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««
That I love you. And I (It's a job.)

Had to call you at the crack of dawn (Why?)

And list the times that I've been wrong.Cause that's just my way of saying
That I'm sorry. (It's a job.) «««««««
Language! It's a virus!Language! It's a virus!
Paradise

Is exactly likeWhere you are right nowOnly much much (It's a shipwreck,)
Better. (It's a job.)
You know? I don't believe there's such
a thing as TV. I mean -
They just keep showing you
The same pictures over and over.

And when they talk they just make sounds

That more or less synch up
With their lips.
That's what I think!
Language! It's a virus!
Language! It's a virus!







««««««««««»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» Language! It's a virus!

Well I dreamed there was an island
That rose up from the sea.
And everybody on the island
Was somebody from TV.
And there was a beautiful view

But nobody could see.
Cause everybody
on the island
Was saying: Look at me! Look at me!
»»»»»»»»
Look at me! Look at me!
Because they all lived on an island
That rose up from the sea.
And everybody on the island
Was somebody from TV.
And there was a beautiful view
But nobody could see.


Cause everybody on the island
Was saying: Look at me! Look at me! Look at me!
Look at me! Look at me! Why?
Paradise is exactly like
Where you are right now

Only m u ch mu ch better.







.LanguageIsAVirusLaurieAndersonAlterado.

.as palavras....

ainda não sei quase nada delas.

há dias em que me são completamente estranhas.

.de chumbo.

e então este texto de laurie anderson.que ela canta.diz.

até a manhã...

29.9.07


















chama uma vez vi



uma vez vi um filme em que tudo era
branco
uma vez vi um filme em que pessoas
ardiam
uma vez vi um filme onde os corpos flutuavam em emoções líquidas
uma vez vi um filme em que um rapaz vivia sozinho num farol
embalado pelo sal
pelo vento sibilante das ervas amarelas




uma vez vi um quadro sobre um punhado de areia que era a praia

e um cão de cartão
e um homem de suor.
acontecia num espaço delimitado por bobinas e sons
era um espaço mental mais que um espaço físico,
habitado pelo homem em desespero crescente de comunicar consigo através do cão,
pesquisar o cartão e o calor por dentro do cartão
o suor do seu corpo varre o chão e as bobinas que serão flores mais tarde
som e fita, areia e cinza e suor



o homem nasceu nu e vai despindo sombras
quando se envolve no cenário de plástico
fá-lo numa perfeita e visceral organicidade,
apesar das pétalas de chama que o consomem
há uma fénix de água marinha nas suas palavras
- strangely enough I am conforted by my smallness, and not for a moment dizzy or lost, repete
e repete e repete infantil e sábio, muito perto da luz




























onOcensAndBonesdeRuiHorta






___________________________________

AntónioLoboAntunes Branco*



Branco como o sol
Branco como o mar
Branco como a ruga
De um remo a boiar
Branco como a sombra
Que à noite projecto
Branco com a linha
Dos fios do tecto
Branco como a língua
O leite a loucura
Os olhos da tarde
Como a arquitetura
Das estátuas gregas
Da areia do tempo
Das nuvens imóveis
E do movimento

Meu eu sem tu







Meu tu sem ninguém


Meu ninguém de sombra

Meu perfil de nada
Meu sem sem sem
Minha madrugada
Perdida esquecida
Achada encontrada
Branca como o sol
Branca como o mar
Branca como um tiro
E nada a sobrar


*forma alterada

2.8.07





~


Não me importa nada






Não me importa nada que as mulheres tenham seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Não dou nenhuma importância, ao facto de que amanheçam com um hálito afrodisíaco ou com um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que ganharia o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas isso sim--e nisso sou irredutível—não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem o tempo as que pretendem seduzir-me!




Esta foi – e não outra, a razão porque me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.



Que me importavam os seus lábios entalhados e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as suas extremidades de palmípede e os seus olhares de prognostico reservado ?



Maria Luísa era uma verdadeira Pluma!









Desde o amanhecer voava do quarto até à cozinha, voava da sala de jantar à dispensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando fazia as compras, as suas canseiras…




Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando de algum passeio pelos arredores! Ali longe, perdido entre as nuvens, um pequeno ponto rosado. "Maria Luísa! Maria Luísa!"... e em poucos segundos, já me abraçava com as suas pernas de pluma, para levar-me voando a qualquer parte.





Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem, como os anjos, e de repente, em saca-rolhas, em folha morta, a aterragem forçada de um espasmo.






Que delícia a de ter uma mulher tão leve…, ainda que nos faça ver, de vez em quando as estrelas! Que voluptuosidade a de passarem-se os dias entre as nuvens… a de passar-se as noites de um só voo!










Depois de conhecer uma etérea, pode-nos brindar com alguma classe de atractivos uma mulher terrestre? É verdade que não há diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?





Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tão pouco imaginar que possa fazer-se amor a não ser voando.










/texto de oliverioGirondo. in qual é a minha ou a tua língua?-cem poemas de amor de outras línguas.fotos de joannaJoy.blue.ThomasZimmerman.underwater.fairyYale./

porque

voar nadar

é

deslizar

na direcção de

nada

de

s e r

o corpo atirado ao acaso

sustentado

apenas

da sua

beleza

da sua

l e v e z a




~



Anônimo disse...

Não sei se voar me interessa.Porque ao voar mergulho em mim num tal solilóquio que qualquer outro me parece esvaziar-se de sentido. Neste meu exercicio de voar vejo coisas. Neste meu acto de narciso contemplo a transparência da paisagem.

Rui Carlos Souto

28.7.07





O DESCASCADOR DE CANELA




Se eu fosse um descascador de canela

deitar-me-ia na tua cama

e deixaria o pó amarelo da casca

na tua almofada.

Os teus seios e os teus ombros cheirariam a canela

nunca mais poderias passar no mercado

sem a profissão dos meus dedos

flutuando por cima de ti. O cego tropeçaria

certo de quem se aproximava

mesmo que tomasses banho

na chuva das calhas, na monção.

Aqui no cimo da coxa

neste macio pasto
vizinho do teu cabelo

ou do sulco

que te divide as costas. Este tornozelo.


Serás conhecida entre os estranhos

como a mulher do descascador de canela.

Só a custo te podia ver

antes do casamento
nunca te toquei.


- a tua mãe nariguda, os teus irmãos tão brutos.
Enterrei as minhas mãos

em açafrão, disfarcei-as com

alcatrão de tabaco

ajudei os apicultores a colher o mel..

Uma vez que estávamos a nadar
toquei-te na água

e os nossos corpos permaneceram livres,


podias segurar-me e ser cega de cheiro

Saltaste a margem e disseste

isto é como tu tocas as outras mulheres

a mulher do cortador de relva, a filha do queimador de limão


E procuraste nas tuas mãos
o perfume desaparecido

e soubeste

como é bom

ser a filha do queimador de lima

deixada sem marca

como se lhe tivessem falado no acto do amor

como se ferida sem o prazer de uma cicatriz

Roçaste o teu ventre nas minhas mãos

no ar seco e disseste

sou a mulher do descascador de canela.



Cheira-me.









.poema.MichaelOndaatje. tradutor.não id.in qual é a minha ou a tua língua?-cem poemas de amor de outras línguas.formaAlterada.foto1.xMaya.2.semid.3.outInTheFieldsMarkSchroeder.







desejo-vos belos tempos de odor a canela

~~ e belos dias... como só os dias de agosto da infância...

dias

de avós

de amoras.

o corpo ateia no chão

vermelhos rumores indecifrados.

ampulheta dormente

paredes

fremindo

sol

~

18.5.07










não dizia palavras






Aproximava só um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.


A angústia abre caminho entre os ossos
Sobe pelas veias
Até abrir-se na pele,
Jorros de sonho
Feitos carne em interrogação às nuvens.


Um toque ao passar,
Um olhar fugidio no meio das sombra,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si um corpo que sonha;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Iguais em figura, iguais em amor; iguais em desejo.


Embora só seja uma esperança
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe.








/luisCernuda os praZeres proibidos.trad desC. roSes:layritz.karsten/

2.4.07




~







Duerme tranquilo




Dijiste la palabra que enamora
A mis oídos. Ya olvidaste. Bueno.
Duerme tranquilo. Debe estar sereno
Y hermoso el rostro tuyo a toda hora.
Cuando encanta la boca seductora
Debe ser fresca, su decir ameno;
Para tu oficio de amador no es bueno
El rostro ardido del que mucho llora.
Te reclaman destinos más gloriosos
Que el de llevar, entre los negros pozos
De las ojeras, la mirada en duelo.
¡Cubre de bellas víctimas el suelo!
Más daño al mundo hizo la espada fatua
De algún bárbaro rey. Y tiene estatua.





[ Alfonsina Storni fot Kerstin Junker



.

21.3.07

gli SSe ment pro greSS if




~






here

i ate

today

suddenly

three-almond-cakes


~

here

i wondered metaphorically that a poem should be a whale (!)


.

here

i celebrated following the nomadic and magical rotation

of-the-happy-small-planets







( tradução súbita e in esperada da Lavinia Saad. após o que outras as palavras. )




Uma visita sua (II)




Uma visita sua
é um copo de água fresca,
é a água e o copo
e a mão que segura o copo.
Em dias que eu não tiver mais copo
faz as mãos em concha
que te darei água fresca.
Em dias que eu não tiver mais água
faz as mãos em flor
eu saberei conjurar a água.
Uma visita sua
é em si um copo de água fresca.

A tua ausência
é um leito seco de riacho.
Barro duro e rachado,
ossos encrustados no chão.
É as margens ásperas dos meus lábios,
os sulcos vazios, palavras num vão.
Eu rôo a tua ausência
até sobrar só um pitoco.
Eu descasco a tua ausência
Até restar só o caroço.
Faz falta a sua visita
como um rio de água fresca.





(Lavinia Saad março 07)




( sÓ.paRa-SaBore.aR. deSejOs.de.hoJe:

doCeS.paLaVraS-doCe.pRiM.aveRa:

de-gieSTas-aMarelaS. áGua e Mel:

a.Pe.S.ar. )






[ foto brasilandobraga




7.3.07

gli SSe ment

~














aqui

comi

hoje

subitamente

três-bolos-de-amêndoa

~

aqui

duvidei metaforicamente que um poema deva ser uma baleia (!)

.

aqui

comemorei a seguir a nómada

e mágica rotação

dos-pequenos-planetas-felizes












[ fot espelh-ação ( brasileira braga

5.3.07

ca la mus





~






WHEN I HEARD AT THE CLOSE OF THE DAY




When I heard at the close of the day how my name had been
receiv’d with plaudits in the capitol, still it was not a
happy night for me that follow’d;
And else, when I carous’d, or when my plans were accomplish’d,
still I was not happy;
But the day when I rose at dawn from the bed of perfect health,
refresh’d, singing, inhaling the ripe breath of autumn,
When I saw the full moon in the west grow pale and disappear
in the morning light,
When I wander’d alone over the beach, and undressing, bathed,
laughing with the cool waters, and saw the sun rise,
And when I thought how my dear friend, my lover, was on his
way coming, O then I was happy;
O then each breath tasted sweeter – and all that day my food
nourish’d me more – and the beautiful day pass’d well,
And the next came with equal joy – and with the next, at evening,
came my friend;
And that night, while all was still, I heard the waters roll
slowly continually up the shores,
I heard the hissing rustle of the liquid and sands, as directed to
me, whispering, to congratulate me,
For the one I love most lay sleeping by me under the same cover
in the cool night,
In the stillness, in the autumn moonbeams, his face was inclined
toward me,
And his arm lay lightly around my breast – and that night I
was happy.





QUANDO OUVI PELO FIM DO DIA




Quando ouvi, pelo fim do dia, como o meu nome havia sido
recebido com aplausos no Capitólio, ainda assim não foi
feliz para mim, a noite que se seguiu;
E, quando festejei, ou, quando os meus planos foram atingidos,
assim mesmo não me senti feliz;
Mas, no dia em que cedo me levantei, de perfeita saúde,
renovado, cantando, inalando o maduro fôlego outonal,
Quando vi a lua cheia, a oeste, ficando pálida e a desaparecer
na luz da manhã,
Quando vagueei sozinho sobre a praia e, despindo-me, me banhei,
rindo com as águas frias, e vi o sol nascer,
E quando pensei em como o meu querido amigo, o meu amante, estava a
caminho, Oh, então senti-me feliz;
Então, cada fôlego me foi mais doce – e todo o dia, meu alimento
me nutriu mais – e o belo dia passou bem,
E o seguinte chegou com igual alegria – e com o próximo, pelo fim da tarde,
chegou o meu amigo;
Naquela noite, quanto tudo estava calmo, ouvi as águas rolar
continuamente, lentas sobre as margens,
Ouvi o assobio sussurrado do líquido e das areias, como que dirigindo-se a
mim, cochichando, felicitando-me,
Porque aquele que amo dormia comigo sob a mesma coberta
na noite fria,
No sossego, nos outonais raios de luar, seu rosto inclinado
sobre mim,
Seu braço em redor do meu peito, suavemente – e naquela noite
fui feliz.







in CALAMUS. Walt Whitman. Trad. José Agostinho Baptista





"Cálamo é aqui uma palavra corrente.
Trata-se da erva ou juncácea aromática
de grande porte que cresce nas zonas
pantanosas dos vales,
cujo caule mede quase um metro de altura;
vulgarmente chama-se sweet-flag;(...)"
(carta de Whitman ao seu editor inglês em 1867)



3.3.07

vo O



~











o des-per-ta-dor a

fazer tik-tak-tik-tak-tik-tak...

sempre-a-mesma-mesa

sempre-os-mesmos-olhos

pensou mudar de boca e d` ouvidos

é preciso mudar alguma coisa disse o homem

e repetiu e repetiu e

repetiu

pra começar trocou as palavras:

ao muro chamou vento

à casa espelho

à casa espelho ( à casa lua?

à lua casa

à estátua peixe

à rua pastagem

à morte voo


( criou então um lugar mágico onde anotava as letras

ainda quentes...)











[ fot letra s zup







26.2.07

all beauty




~











hOje a minha felicidade

é iGual à de todas as Mulheres da minha terRa


eStender a leNta roupa ao soL

qUe eMbala


liMpar as mãos no aVental

aMaSsar

escoRrer no Vinho o pãO


fazer a Sopa


faZer a sopa







[ fot memória-palha

25.2.07

beijo




~











mel ange




orbs



rota



falar do beijo das palavras








~






[ fot ver de crescer